Novas aplicações mostram caminhos para agregar valor à cadeia da borracha natural
O látex extraído das seringueiras está conquistando novos mercados além dos usos tradicionais da indústria. A borracha natural, matéria-prima historicamente ligada à fabricação de pneus e outros produtos industriais, também passa a ser utilizada em segmentos como moda, design, turismo e bioeconomia, com iniciativas que agregam valor à cadeia produtiva.
Empreendimentos como Dr. da Borracha, Da Tribu e Seringô mostram como inovação, conhecimento tradicional e tecnologias sociais podem transformar a relação com a borracha natural. Ao realizar etapas de beneficiamento próximas às comunidades produtoras, essas iniciativas ampliam a rastreabilidade da matéria-prima, valorizam a origem dos produtos e fortalecem a remuneração dos extrativistas.
Segundo Rubens Magno, diretor superintendente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Pará (Sebrae-PA), a borracha natural é um dos exemplos mais representativos da bioeconomia e da sociobiodiversidade, pois depende da preservação dos ecossistemas onde é produzida. Para ele, esse modelo fortalece a economia da floresta em pé e amplia o protagonismo das populações tradicionais dentro da cadeia produtiva.
Da seringueira ao design amazônico
Filho e neto de seringueiros, José Rodrigues de Araújo, conhecido como Dr. da Borracha, transformou a experiência familiar com a extração do látex em um negócio baseado em inovação e valorização da identidade amazônica.
Morador de Epitaciolândia (AC), o empreendedor começou no corte da seringa e, em 2004, conheceu uma tecnologia de processamento menos poluente da borracha durante uma capacitação com professores da Universidade de Brasília (UnB). A partir dessa experiência, passou a desenvolver produtos como calçados, bolsas e acessórios.
Atualmente, a empresa produz cerca de 450 peças por mês, emprega dez pessoas e registrou receita de R$ 240 mil em 2025. Os calçados são o principal produto da marca, com modelos vendidos entre R$ 150 e R$ 200. O negócio também criou o Parque Ecológico Dr. da Borracha, que une turismo, educação ambiental e valorização da história dos seringais.
Borracha natural como biomaterial
Em Belém (PA), a Da Tribu nasceu em 2009 com a proposta de transformar a borracha amazônica em produtos ligados à economia criativa. A empresa desenvolve materiais como fios e tecidos de borracha natural combinados com algodão ecológico, utilizados na produção de joias orgânicas, bolsas e outros itens de design.
A iniciativa trabalha com látex adquirido de seringueiros e transformado em materiais de maior valor agregado. Em 2025, a empresa faturou R$ 850 mil e projeta alcançar R$ 1 milhão neste ano, com uma rede produtiva formada por cerca de 40 pessoas no Pará.
Além dos produtos, a Da Tribu também criou experiências de turismo que apresentam aos visitantes todas as etapas do processo, desde a extração do látex até a transformação da borracha em peças de design.
Tecnologia e valorização da origem
Fundada em 2018 pelo professor e pesquisador Francisco Samonek, a Seringô busca ampliar a autonomia dos produtores e agregar valor à borracha natural ainda na origem.
A empresa atende atualmente 1.565 famílias ribeirinhas de 85 comunidades em 12 municípios do Pará e utiliza o Cernambi Virgem Ecológico (CVE), tecnologia certificada pela Fundação Banco do Brasil em 2021 que permite o processamento da borracha nas próprias comunidades produtoras.
A inovação também possibilitou a criação de novos produtos, como biojoias, utilidades domésticas, peças de vestuário e tênis compostos por 70% de borracha natural e 30% de caroço de açaí micronizado. Todos os artigos possuem QR Code para comprovar a origem dos insumos e ampliar a rastreabilidade da cadeia produtiva.
As iniciativas mostram como a borracha natural pode superar o modelo tradicional de comercialização como commodity, abrindo espaço para novos mercados baseados em inovação, sustentabilidade e valorização da origem da matéria-prima.
Fonte: Revista PEGN
Imagem: Magnific